Sonho Compartilhado
O barulho da cozinha é apenas o da geladeira; esse zumbido de motor se junta, a cada um minuto (não cronometrado), ao som de uma gota de água que fica pingando num balde, fazendo um som de “tuc”. Apenas um solitário “tuc” que quebra o som da geladeira. Que ficou chocada ao ganhar, hoje, novos visitantes: iogurte, queijo prato, ovos, Coca-Cola sem açúcar e creme de ricota.
Hoje contei sobre um sonho que tive para o meu psicólogo. É estranho contar um sonho em voz alta; o que até então não estava no mundo real se transforma em palavras, em definições, em suposições. E aí está: o ônibus que até então só existia no sonho, protegido da materialidade, ganha forma, ganha cor, ganha movimento. O sonho vai mudando de casa: muda-se do pensamento para a voz, que ganha os ouvidos. Os sentidos se transformando para trazer mais sentido.
O sonho, então solitário e escondido só comigo, como se fosse um segredo meu, torna-se algo compartilhado. Um sonho compartilhado. Minha visão das imagens se encontra com as visões das imagens do meu psicólogo. Tento me lembrar dos detalhes; no começo, eles importam. É um jogo de associações, de analogias. Retiramos de todos os detalhes, palavras importantes. Construímos um caminho de entendimento. Os detalhes ficam para trás; o que importa agora é o que senti. Tristeza, desconforto, sabedoria.
Você não ama analogias?


